Editorial

Voltar ao normal

A condição de normalidade é alcançada quando algo passa a ser aceito como regular, habitual e normativo. Aquilo que é considerado normal se torna um condicionador do pensamento e das atitudes do indivíduo e da coletividade. O normal tem uma tendência natural de conservação porque oferece uma sensação de segurança e tranquilidade. De outro lado, mudanças sempre oferecem um risco para o que é normal.

Os últimos meses têm se apresentado como verdadeiro pesadelo para a normalidade das coisas. Começando com as atividades mais simples e cotidianas, até aquelas mais complexas e elaboradas. A rotina de sair de casa para ir ao mercado ou à padaria, por exemplo, mudou, passando a exigir uma pequena operação de guerra. Luvas descartáveis, máscaras e produtos antissépticos vão sendo assimilados na nova rotina. Em outras áreas, aeroportos fechados, indústrias paradas, funcionários em férias sem poderem sair ou viajar. O mundo está diferente.

À medida que a pandemia do novo coronavírus foi se instalando, os conceitos e estruturas considerados normais sofreram uma reviravolta. As mudanças impostas romperam tendências de conservação, exigindo e forçando a alteração de paradigmas. Palavras ou expressões como home-office, delivery, videoconferência, banco de horas, renegociação ou cancelamento se tornaram corriqueiras. A internet, os aplicativos e as redes sociais aceleraram a reorientação do comércio, dos serviços e das relações interpessoais. Até mesmo a religião sentiu o impacto dessa mudança de hábitos. Será possível pensar em voltar ao normal?

O fato é que estamos em meio a um “novo normal”, que vai ganhando espaço dia a dia, criando rotinas novas, moldando hábitos sociais diferentes, estabelecendo outras relações de comércio, de negócios e de serviços. Ainda é prematuro tentar tirar todas as consequências desse processo de mudanças, que podemos, de alguma forma, comparar com a metamorfose. Numa primeira fase, de intensa movimentação, a lagarta gasta seu tempo buscando alimento e reunindo forças para a etapa seguinte.

Quando atinge a condição-limite, a lagarta é forçada a tecer um casulo, tornando-se uma crisálida. Aparentemente nesse estado não há movimento, tudo parece estar em repouso. No interior do casulo, no entanto, a natureza segue seu curso, mudanças extremas vão determinar o futuro da lagarta. A etapa seguinte vai exigir paciência para sair do estado de dormência e determinação, para pôr em movimento os pares de asas que antes não existiam. A lagarta agora é borboleta, vai adaptar-se ao ambiente e dar continuidade à vida.

A borboleta é o “novo normal” que carrega os vestígios da lagarta, e aqui serve de metáfora. Certamente a vida vai continuar e o mundo sairá do isolamento, vencendo a pandemia. As atividades econômicas e produtivas serão reaquecidas, as pessoas vão voltar a se encontrar e frequentar as lojas dos shoppings, as igrejas retomarão suas celebrações e seus ritos. O momento atual, porém, deixará marcas profundas. Novamente a pergunta pelo que é normal, pelo que será o novo normal e como tudo isso vai atingir todos nós.

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